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Boeing fica com 80% da divisão de jatos comerciais da Embraer por US$ 3,8 bi

Data: 06/07/2018

A Boeing acertou a compra de 80% da divisão de jatos comerciais da Embraer por US$ 3,8 bilhões (R$ 14,9 bilhões). Um memorando de entendimentos foi assinado nesta quinta-feira (5), mas a conclusão do negócio está prevista para ocorrer apenas no segundo semestre de 2019.

As duas companhias agora correm contra o tempo para fechar os detalhes finais do acordo e submeter à aprovação do governo brasileiro, que detém uma “golden share” na Embraer, antes do fim do mandato do presidente Michel Temer.

O atual governo já expressou sua simpatia pelo negócio, mas essa percepção pode mudar dependendo de quem for o vencedor das eleições presidenciais de outubro. Depois disso, ainda será necessário obter o aval dos órgãos de defesa da concorrência em vários países do mundo.

De acordo com o memorando de entendimentos assinado com a Boeing, os ativos da divisão de jatos comerciais da Embraer, que hoje representa mais de 60% do faturamento de cerca de US$ 6 bilhões da fabricante de aviões brasileira, serão transferidos para a nova empresa, cujo nome ainda não está definido.

A nova companhia terá sede no Brasil, mas será uma subsidiária integral da Boeing, que deterá o comando da gestão, indicando o CEO e toda a administração. A Embraer será um acionista minoritária, com 20% do capital e deve ter um assento no conselho.

Ainda há alguns pontos em aberto no acordo. Não está definido, por exemplo, o destino dos US$ 3,8 bilhões a serem pagos pela gigante americana. A expectativa é que parte dos recursos seja reinvestido na empresa e parte seja embolsado pelos acionistas da Embraer, cujo capital é bastante pulverizado.

Também não há previsão de transferência da área de montagem de jatos comerciais da Embraer, que hoje é feita na fábrica em São José dos Campos (SP). Mas ainda não está acertado se o acordo final trará alguma restrição para que a Boeing faça isso no futuro.

Com a transferência da divisão comercial, a Embraer vai encolher significativamente, permanecendo apenas com as áreas de jatos executivos e de defesa, que, respondem, respectivamente, por 25% e 13% da receita atual da companhia brasileira.

DEFESA
O memorando de entendimentos divulgado por Embraer e Boeing também menciona a criação de uma nova joint venture na área de defesa, um tema extremamente sensível para o governo brasileiro, mas não dá muitos detalhes.

Segundo Paulo Cesar de Souza e Silva, presidente e CEO da Embraer, as negociações estão em curso, mas o desenho mais provável é que os ativos relacionados ao avião cargueiro multimissão KC-390 sejam transferidos para uma nova empresa. Só que, neste caso, a Embraer deteria o controle e a gestão da companhia, enquanto a Boeing ficaria como acionista minoritária. As participações, no entanto, ainda não foram definidas.

O objetivo da gestão da Embraer com o negócio na área de defesa é que a Boeing ajude o KC-390 a conquistar clientes, já que esse mercado é bastante complicado de acessar. A fabricação do avião permaneceria em Gavião Peixoto (SP).

POLÊMICA
A associação entre Embraer e Boeing é bastante polêmica e deve se tornar um dos temas das eleições presidenciais de outubro, já que o surgimento da fabricante de aviões brasileira foi totalmente financiado governo a partir da década de 1950.

Com o passar dos anos, no entanto, a Embraer entrou em crise e acabou privatizada em 1994. Desde então, tornou-se uma das companhia mais bem sucedidas do país e hoje é a quarta maior fabricante global de aviões, atrás de Boeing, da francesa Airbus e da canadense Bombardier.

Para Silva, da Embraer, o negócio com a Boeing é o melhor caminho para manter a competitividade da Embraer em um mercado cada vez mais disputado, principalmente depois de associação semelhante entre Airbus e Bombardier e da entrada de chineses e russos.

“Precisamos ter a musculatura– capital , tecnologia e acesso a mercado - para enfrentar a concorrência dessas grandes empresas. A Embraer hoje está bem, mas a associação com a Boeing é muito importante para a sustentabilidade do negócio no longo prazo”, disse o executivo à Folha.

MERCADO
A Embraer informou que permanecerá uma companhia aberta, registrada na Categoria A, e com ações listadas no segmento especial do Novo Mercado da B3, dona da Bolsa brasileira.

A União também manterá seus direitos decorrentes da ação especial (golden share) de emissão da companhia.

Segundo comunicado, a transação não deve ter impacto nas projeções financeiras da Boeing e da Embraer para 2018. À CVM, a Embraer disse que "ainda não é possível determinar o efeito líquido da operação sobre a posição financeira e os resultados da companhia."

A nova empresa terá uma política anti-diluição e uma de dividendos, "com o objetivo, inclusive, de proteger o investimento da companhia", disse a Embraer. A dívida da brasileira relacionada ao negócio de aviação comercial migrará para a nova empresa.

Tanto a Boeing quanto a brasileira não poderão dispor de suas respectivas ações de emissão da nova empresa pelo prazo de dez anos a contar do fechamento da operação (o chamado "período de lock-up”).

Segundo a Embraer, os documentos definitivos do acordo deverão prever ainda regras para a transferência de ações, incluindo o direito de primeira oferta, o direito de venda conjunta de acionistas minoritários caso o controle da companhia seja adquirido por um novo investidor (tag along) e o direito de obrigar a venda conjunta (drag-along) por parte dos minoritários se o acionista majoritário decidir vender sua participação.

"Em determinadas circunstâncias, a companhia terá o direito de vender sua participação na nova sociedade para a Boeing, como usual em operações dessa natureza", disse a Embraer.

As ações da Embraer abriram em queda de mais de 6% após o anúncio do acordo. Por volta das 12h, recuavam na casa de 15%. Analistas apontam que o valor atribuído à empresa pode ter frustrado investidores, mas é preciso considerar também a alta nos papéis da companhia desde o fim do ano passado.

As primeiras notícias sobre as negociações surgiram em 21 de dezembro de 2017. De lá para cá, as ações da Embraer se valorizaram mais de 30%.

Nesta quarta (4), a companhia valia R$ 19,9 bilhões em valor de mercado.


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